24/11/2009

Era ele- era eu.


Lembro bem do que era a sensação de serenidade-eu deitada ali no passeio da existência no fim de uma noite quente, o calor que saia do chão deixando a brisa no rosto mais fresca e o sono chegando e me fazendo abrir bem os olhos e os ouvidos para as prosas misteriosas do mundo adulto.


Papai, mamãe e toda a vizinhança da Rua José Andrade ali- fantasmas, fofocas, volta ao mundo em 80 minutos- só para tomar a fresca, minha gente! O mundo era tudo aquilo que eu ouvia e significava:

"Bianca, Bianca, pega a cadeira na varanda- levanta dessa chão e tira os olhos do céu!"- meu pai me dizia com uma voz violentamente doce.


Era quase uma música de fundo que me conduzia nos desvios e desvãos das estrelas- já não sabia se era sonho ou realidade e nesse estado de deliciosa tontura, vento nos cabelos e pés descalços eu era arremessada na cama.


Nas interseções dos sonhos que sonhava, eu fui me construindo. Hoje, ainda me pego sentindo uma certa paz nostálgica, quando me lembro de tudo- até da decadência agoniada e mansa daquelas pessoas e daquele chão.


Ainda mora em mim, aquela casa misteriosa onde aprendi o sublime e o trágico da vida- quintal, portão de madeira, mergulho em piscina de mentira que sempre transbordava, brinquedo inventado, brincadeira improvisada, boneca querendo virar gente.


Tudo era meio baldio, mesmo sendo cheio e havia naquele universo uma precariedade fascinante. Havia sempre uma ponta de silêncio, uma violação ao segredo e nesses buracos de realidade e fantasia, eu fui me virando e revirando.


Não havia pobreza, as pessoas viviam com aquilo que existia ali. Ninguém queria ser rico, bastava uma grana extra para um sorvete gelado no fim da tarde- era só bom- assim mesmo- sem angústia, sem kibon, sem nada. A única marca era a do sorvete derretendo na roupa e as mãos meladas segurando o corpo na bicicleta velha. Tudo era tristemente feliz e em seu lugar.


Naqueles dias, todos acordavam cedo demais. Ainda lembro do frio e da neblina branca, que me envolvia nas madrugadas em que eu saía para a escola. Era cedo demais e da rua vinham ruídos remotos: cachorro latindo, rádio ligado na vizinha, barulho de vassoura varrendo as folhas das árvores.


O dia nascia branco e terminava ás seis da tarde com ave- marias e canções melancólicas vindas da única igreja da cidade. O cair do dia era poético e medonho.

Aquilo que precede a noite, bota medo até hoje e o crepúsculo, ainda é um mistério que me sonda( ave- maria vira mulher nessa hora!)


Na minha remota memória de serenidade, lembro também de todas as dramáticas fragilidades da minha família: uma violência latente estava sempre presente naquele cenário de filme noir-um pai infinitamente louco e interessante, uma mãe doçura em pedra- bruta, meu "amigo- avô" de travessuras, morte chegando sem explicar, cheiro de chuva no mato, a gente disputando a janela para ver a tempestade caindo torta nas montanhas, rua sendo lavada, sonhos com lugares desconhecidos, pipoqueiro na praça, Júlio Verne saindo da boca encantada de minha mãe, festa de Maria, outras Marias e romarias, lua tremendo no céu, arco- íris como símbolo de alegria insistente e mineira- atrás dele estava uma riqueza desmedida, só que "atravessá-lo era coisa para gente corajosa"- meu pai dizia entre um baforada e outra de um cachimbo sedutor e fálico. Freud já devia me explicar e já olhava para mim, ali da estante de livros de meu pai e me interrogava com seu outro cachimbo.


Minha vida bem que dava um filme- entre praças, jardins, coretos, espinhos, mangas roubadas, casos fantásticos e vestidos de chita.


"Des- cobrir" o mundo não é nada, senão uma extensão densa e enviesada desse mundo colorido, selvagem e transbordante- que foi plantado em mim nas montanhas mineiras.


Descoberto não é lugar, é destino. Descobrindo mais, eu senti serenidade no meio da cidade grande.


Senti o encontro dos encontros na fala violentamente doce de outro homem- não era meu pai e nem Freud.


Era ele e era eu. Tive medo!


Só por isso....



13/11/2009

Prelúdio...


Não sabia de nada mais do mundo- estava noite adentro" lendo os campos para entender Mallarmé", tateava os objetos com um querer louco e febril- tudo era gozo e encantamento na existência poética das entrelinhas.


Ela ali, desejando a melhor rima para seu corpo e só era mesmo- pequeno ponto diante do vazio imensurável do espaço, lendo tudo perplexa e devorando feminina a linguagem; com gosto e urgência.


Queria era saber inédito, saber não- sabido, palavra rolando em despropósito-de saber estabelecido e concluído estava cansada. Queria fazer amor com poesia dentro do ouvido.


O que estava em jogo não era a utilização de um corpus textual dado, era a instauração de um jogo – lance de dados, trapaça salutar, disseminação, política da sereia, estrela dançante.. – ao qual essa leitura, um tanto desajeitada, de Mallarmé, quis servir de prelúdio.


Uma vez esse oco aberto, a confrontação com um texto-limite só fazia evidenciar seu desejo pelo frescor na letra. Não suportava mais a solidão dos significados partilhados, as paredes pareciam sufocar, as palavras essenciais ainda seriam ditas- elas queriam voar.


Os dias vividos até agora pareciam não ter fim.

No copo vazio sobre a mesa aqueles dois dedos de café do dia anterior na varanda.

Talvez Cartola na vitrola, talvez o mundo fosse um moinho.


Ela se sentia quase invisível naquela noite e agitava angustiada os braços no meio do nevoeiro.

Estratégia ineficaz: ao invés de conseguir contato, a névoa ficava cada vez mais densa. Poesia é risco sempre...


Mas solidão era rito de passagem- era encontro também.

Ela não queria soar pesarosa e lúgubre em seu castelo construído com os tijolos da auto- proteção. Tinha encontro lá dentro do desencontro, tinha compasso novo naquela agonia toda.

Acreditava em Herman Hesse- " solidão é o modo que o destino encontra para levar o homem para si mesmo."


Devia ser....



09/11/2009

Nudez das tramas...


Mergulhou em seus tecidos para ver se o sono chegava e se a dor passava.

Fez uma pátina na alma- queria sentir a profundidade cheia de nuances de seu casco.

Ela era madeira, mesa, cadeira- qualquer coisa que acalmasse e sangrasse sem muita ferida.


A seda se tornava feérica, o coração um adasmacado barroco- vestia- se naquela noite com os farrapos da sua história e mergulhou no mistério de si e num mundo onde tudo era fantasia.


A realidade era dura, cortante e cinza, mas no meio da renda mais suave, se deleitou na transparência do outro.

Tinha também veludo azul, brocado, lã e algodão. Tinha tudo que pudesse revelar e desvelar.


Carregava um medo enorme de se enroscar para sempre entre a letra e a tessitura de tudo.

Cortou, costurou e entre plissados, dobrados, amassados e furados achou seu lugar.

Sentia uma afinidade cromática com todas aquelas tramas e sendas.

Inquieta, ela era arco- íris esperando sol e chuva para levantar.


O vestido estava quase pronto.

Ela olhou para a vida com um atrevimento que nunca teve antes.

Era só ter coragem de vestir e seguir viagem.


Ser mulher era peleja sem fim- pensou em descompasso.

Um dia ela e o vestido se entenderiam.

E seria a nudez mais bonita que os olhos de um homem poderiam enxergar....


08/11/2009




A minha palavra favorita é bruma.
Gosto também de espuma e pluma.

Acho impressionante qualquer palavra terminada em "uma"- parece que todas elas denotam leveza.

A palavra que eu menos gosto é pernóstico- tenho medo dela e de tudo que ela possa abarcar.

O que mais me dá alento é a paisagem das montanhas de Minas, entretanto o mar olhando para dentro de mim é mistério sem fim.
O que mais me desanima é palavra dita sem oco, letra sem deslizamento metonímico e vida sem metáforas delirantes.

O barulho que eu mais gosto é de chuva caindo na janela da minha infância. E o som que embala minha vida é samba- " e para fazer um samba com beleza é preciso de um bocado de tristeza, senão não se faz um samba, não!"

Sou de Minas com bossa carioca- Descoberto é um retrato na parede que ainda me emociona
Tenho amigos de infância, saudades e vontade de seguir em frente.

Sem amor, humor, amizade e lealdade não me relaciono.

A minha idéia de felicidade é a imperfeição dentro do perfeito, o estranho dentro do familiar e um amor para sonhar.

Minha maior extravagância é saltar de abismos e tomar brisa no rosto em dia de sol quente.

O meu melhor amigo é o meu amor- e sempre será assim.

Meu herói de ficção favorito é o Freud e meu dândi predileto é Jacques Lacan.
Meu outro herói marginal e contador de histórias é meu pai- metade delicadeza, metade pedra bruta. Minha fonte de doçura primeira é aridez maternal que faz flor nascer na dor.

Não tenho medo da morte, tenho medo da apatia. Não posso viver é sem poesia-minha viagem predileta, meu ar no sufoco da solidão, atrevimento que me impele amar sem medida.
Gostaria somente, que a morte chegasse suave e lúcida e que eu tivesse tempo de dizer do meu amor aos meus queridos.
Mas antes disso ainda há muito-uma leitura última de Alan Ginsberg que me ensinou a não ter medo de poesia, um vinho partilhado em entrega pura e plena, um olhar sincero e nu, Paris no outono, sexo com amor, Flaubert na madrugada, Thomas Mann em tarde quente, Nietzsche para quando a dúvida insiste, Guimarães Rosa e Clarice para quebrar a dureza da linguagem fria e opaca, sorvete na praça, Lucien Freud, Bacon, Adriana Varejão, Zerbini para tempos de olhos saturados de imagens prontas...

Antes disso, muito desejo contido saltando para o mundo e desbravando novos lugares.

Tenho muito intervalo ainda para significar e desconstruir!
Tenho dito!
No compasso de tudo, uma música faz eco:


02/11/2009

Carta do desatino....


Sobrara ainda um pouco de desconcerto e dois dedos de café no copo.

A mesa vazia, o silêncio da manhã atravessando o sol na varanda.

Ela ainda tentava encontrar equivalência entre os dois universos.

Apaixonada pelo que lera, foi anotando tudo atrás de cada imagem.

Aquilo tudo era encontro- e o ressentimento era grande por isso.

Tivera a menor intenção de desgostosura, não!


Sentou na sacada e olhou o mundo- Cão sem plumas na mão, Jean Cocteau dançando na sala.

João Cabral virou canção- vê se pode!

Passou um tempo e Beatles na vitrola- só para respingar um pouco mais de mar.


Por causa de Drummond tomou mais um gole de café- o enigma era mesmo claro.

Roteiro imaginário, cartografia de amor, ensaio do que nunca foi.


Bebeu feliz seu sumo- mesmo sem ele saber.

Foi bonito como nunca.

Tinha lascívia e volúpia transbordando no mundo.


Permaneceu agarrada no seu corpo e na sua escrita_ precisa e cirúrgica.

Queria provar de seu universo, mas era deserto naquela manhã quente.


Nada e silêncio- ficção contada com cara de verdade.

Era também mistério, solidão e descoberta.

Ele e ela- intensidade feita de surpresa e desejo.


Mas, o afastamento se colocara como uma necessidade profunda e urgente:

No acaso ela não sabia se era pluma ou abismo.


Esperava calada um aceno....


A vida era feita de tempo, espera, memória e transformação.

01/11/2009

Carta de um desvario...


Era só o sufoco do impasse invadindo a noite.

Os dois ali bebendo. Devassa. Bataille. Lacan e cia.

Palavra solta na boca.

Linguagem transbordando do silêncio impertinente.

Era mesmo ficção- e eu era mesmo amontoado de palavras,

letra fora do lugar, antinomia, paradoxo.


Era mesmo só precipitação, tentativa de minimizar a dor de existir- jeito de morrer um pouco.

Era transgressão de um dia- lá não tinha acordo, barganha, sonho de varandas e jardins. Tinha oco, buraco, qualquer espaço para tampar.


Dia seguinte era pesadelo, encontro com o gozo do outro-

ela, ele, e mais um inacabado corpo gravitavam dispersos em torno do amor- delivery.

Todo mundo era ignorante da verdade da linguagem. Ninguém sabia viver.


A palavra era líquida- escorria.

A palavra era vento- doía.


Ninguém ali sabia como seria -tinha desamparo de poeta, melancolia em dose de conhaque- solta mais uma, por favor!

Coração saindo pela boca- incerto e imprevísivel-

caiu dentro do copo vazio.

A cerveja acabou....


Onde é que se morre, vez em quando?

Diz, diz...


A linguagem falou em mim- não era eu.

A palavra repensou a cena.

O corpo dela era vazado- amortizava assim o equívoco da vida bebida com urgência.

Vida é coisa para se morrer de vez em quando- mas só de vez em quando.....

Aquilo tudo era um desvario....





30/10/2009

Os dois....


Era um menino perdido- angustiado com a existência e com as nuances do cotidiano.


Buscava incessantemente expor- se a riscos e sofrimentos, recusando qualquer tentativa de imersão na realidade. Era herói trágico, representante em extinção de um dandismo à flor do nada.


Em seu universo particular revelava uma faceta de auto- agressão, com a busca da dor e do erro como saída ao vazio do amor em sua vida.


Seu funcionamento e seu modo de existir rejeitavam qualquer tentativa linear e direta de se explicar o mundo. Ele era especial, parecia ter uma percepção aguda das coisas e da brevidade de tudo. Entendia perfeitamente aquilo que Freud dizia- viver era mesmo uma teimosia , ficar e ir, morte e vida se encarando o tempo todo - caminho na linha da navalha entre o conflito e a conciliação dessas duas tendências.


Quando o conheci, seu rosto já denotava um sofrimento que ia além da dor física- essa só lhe servia de alívio para essa dor inaugural de se saber humano e faltoso. Era um moço elegante- carregava junto com a dor, uma poesia cheia de som e fúria, no olhar e na fala.



Tinha olhos mansos e transbordava doçura de seu coração.

Olhei para o menino e senti vontade de pousar ali naquele sofrimento.

Ele havia me decifrado, mesmo sem saber.

Eu estava intrigada com esse lastro maldito que nos habita e que nos faz buscar na dor e no engodo o alívio.


Erámos bastante parecidos- tanto que era de se botar medo o encontro, mas encarei.

E através dele e com ele, pude me interrogar sobre coisas tão ternas e outras tão duras.



Ele caminhava com um certo desprendimento pela vida sem conseguir retê-la. Com uma fragilidade vítrea se arrastava pelos dias- no infinto de si. Não queria saber do fim, e paradoxalmente conduzia seu corpo à um estado mínimo de tensão- na linha reta da respiração, no sufoco angustiado do amor negado, velado, impossível.


Tinha urgência de viver tudo de uma vez e parecia não ter um mecanismo regulador de prazer-desprazer. Não tinha filtro- só olhos abertos e espantados para as coisas e um coração grande e desejoso de afeto batendo em descompasso num peito quase sem ar.


Sua vida era dura, opaca, e embora ele tivesse um brilho nos olhos e um sorriso largo e afetuoso, seguia se torturando a fim de eliminar a possibilidade de sofrer por outra forma ou em graus imprevisíveis. Bebia a vida com uma urgência acelerada no gargalo e escancarava o demasiadamente humano- utilizava significantes da fantasia a fim de evitar uma castração, exibia sua miséria como pérola, mas demandava era amor. Sonhava com o dia em que ele chegaria- e chegou, mas sabia no fundo que ninguém o salvaria. Havia entre ele e as coisas um precípicio- ansiava pela proximidade reconfortante dos objetos, uma vez que nunca sentiu isso em sua vida, mas só o conseguia fazer na forma de tortura à si mesmo.


Era incapaz de causar dor aos outros e tinha compaixão por todos. Era bom, do bem, amoroso, quase "naif". A sua posição no mundo era só uma solução para o enigma diante do qual ele tinha que se situar como sujeito. A falta de acolhida por parte de seus primeiros objetos de amor, deixaram- no perdido e sozinho de um jeito muito peculiar- ele sabia que solidão era sina de qualquer um, mas só podia se produzir enquanto vazio, visto que não reconhecia um olhar primeiro de reconhecimento.


Eu vi beleza ali e entendi que seus movimentos de auto- agressão eram uma tentativa de se controlar o desprazer e torná-lo previsível, visto que isso ninguém fez por ele.



Quando encontrou meu olhar, disse que pela primeira vez sentia- se sereno.

E eu, atônita, percebi que meu corpo se calava calmamente diante de sua serenidade- ele também era para mim o lugar de onde vem a calma.


O menino era eu- pedaço arrancado de mim. Onde ele fosse, eu estaria...

Morávamos um do lado do outro, mesma cidade- quase dentro do mesmo jardim...