
Lembro bem do que era a sensação de serenidade-eu deitada ali no passeio da existência no fim de uma noite quente, o calor que saia do chão deixando a brisa no rosto mais fresca e o sono chegando e me fazendo abrir bem os olhos e os ouvidos para as prosas misteriosas do mundo adulto.
Papai, mamãe e toda a vizinhança da Rua José Andrade ali- fantasmas, fofocas, volta ao mundo em 80 minutos- só para tomar a fresca, minha gente! O mundo era tudo aquilo que eu ouvia e significava:
"Bianca, Bianca, pega a cadeira na varanda- levanta dessa chão e tira os olhos do céu!"- meu pai me dizia com uma voz violentamente doce.
Era quase uma música de fundo que me conduzia nos desvios e desvãos das estrelas- já não sabia se era sonho ou realidade e nesse estado de deliciosa tontura, vento nos cabelos e pés descalços eu era arremessada na cama.
Nas interseções dos sonhos que sonhava, eu fui me construindo. Hoje, ainda me pego sentindo uma certa paz nostálgica, quando me lembro de tudo- até da decadência agoniada e mansa daquelas pessoas e daquele chão.
Ainda mora em mim, aquela casa misteriosa onde aprendi o sublime e o trágico da vida- quintal, portão de madeira, mergulho em piscina de mentira que sempre transbordava, brinquedo inventado, brincadeira improvisada, boneca querendo virar gente.
Tudo era meio baldio, mesmo sendo cheio e havia naquele universo uma precariedade fascinante. Havia sempre uma ponta de silêncio, uma violação ao segredo e nesses buracos de realidade e fantasia, eu fui me virando e revirando.
Não havia pobreza, as pessoas viviam com aquilo que existia ali. Ninguém queria ser rico, bastava uma grana extra para um sorvete gelado no fim da tarde- era só bom- assim mesmo- sem angústia, sem kibon, sem nada. A única marca era a do sorvete derretendo na roupa e as mãos meladas segurando o corpo na bicicleta velha. Tudo era tristemente feliz e em seu lugar.
Naqueles dias, todos acordavam cedo demais. Ainda lembro do frio e da neblina branca, que me envolvia nas madrugadas em que eu saía para a escola. Era cedo demais e da rua vinham ruídos remotos: cachorro latindo, rádio ligado na vizinha, barulho de vassoura varrendo as folhas das árvores.
O dia nascia branco e terminava ás seis da tarde com ave- marias e canções melancólicas vindas da única igreja da cidade. O cair do dia era poético e medonho.
Aquilo que precede a noite, bota medo até hoje e o crepúsculo, ainda é um mistério que me sonda( ave- maria vira mulher nessa hora!)
Na minha remota memória de serenidade, lembro também de todas as dramáticas fragilidades da minha família: uma violência latente estava sempre presente naquele cenário de filme noir-um pai infinitamente louco e interessante, uma mãe doçura em pedra- bruta, meu "amigo- avô" de travessuras, morte chegando sem explicar, cheiro de chuva no mato, a gente disputando a janela para ver a tempestade caindo torta nas montanhas, rua sendo lavada, sonhos com lugares desconhecidos, pipoqueiro na praça, Júlio Verne saindo da boca encantada de minha mãe, festa de Maria, outras Marias e romarias, lua tremendo no céu, arco- íris como símbolo de alegria insistente e mineira- atrás dele estava uma riqueza desmedida, só que "atravessá-lo era coisa para gente corajosa"- meu pai dizia entre um baforada e outra de um cachimbo sedutor e fálico. Freud já devia me explicar e já olhava para mim, ali da estante de livros de meu pai e me interrogava com seu outro cachimbo.
Minha vida bem que dava um filme- entre praças, jardins, coretos, espinhos, mangas roubadas, casos fantásticos e vestidos de chita.
"Des- cobrir" o mundo não é nada, senão uma extensão densa e enviesada desse mundo colorido, selvagem e transbordante- que foi plantado em mim nas montanhas mineiras.
Descoberto não é lugar, é destino. Descobrindo mais, eu senti serenidade no meio da cidade grande.
Senti o encontro dos encontros na fala violentamente doce de outro homem- não era meu pai e nem Freud.
Era ele e era eu. Tive medo!
Só por isso....






