08/09/2010

Música do céu...


Achei as cartas trocadas entre Alberto e Letícia por um desses acasos impressionantes. Procurava uma nova casa nova, e num sobrado antigo, encontrei no fundo de um armário embutido, dois envelopes amarelados- palavras perdidas de um passado desconhecido. Apressei-me em devolver as chaves na imobiliária, mas antes tomei posse dos dois envelopes, porque sempre teimei em acreditar nessas contingências da vida.

Cheguei em casa assustada e fascinada com a descoberta. Um tanto siderada no tempo, fui tomada por uma sonoridade do passado e ali no meio da sala, ouvia Vladimir Horowitz e sua música que vinha de um mundo caótico, que eu identificava como sendo meu, um mundo onde sentimentos dançavam hemorrágicos, como as palavras que eu começava a ler comovida e aturdida.

De repente, aquele passado alheio ao meu fez todo o sentido. Lembrei do primeiro homem que me amou e do susto que foi ser tomada como mulher por ele; que dizia não ter nada na vida além do piano Bentley que herdou do avô e do amor sem medida que sentia por mim.

Nas palavras que sangravam da carta encontrada no fundo de um armário, encontrei continente para minha angústia que jorrava por todos os poros. Fechei os olhos e fui conduzida para aquele apartamento onde fui amada pela primeira vez. Ouvi novamente aquele homem, tocando feliz o concerto número dois de Rachmaninov, depois de fazer amor comigo e me inaugurar. Foi o momento de maior estranhamento em toda a minha vida- eu ali deitada, sem saber bem como nomear aquele excesso de paixão que tomava meu corpo; e ele, completamente absorvido pela música que parecia dizer por ele, dessa coisa de chegar ás beiradas de si numa torrente vertiginosa de sentimentos.

Eu, impactada com a força da alteridade pesando no meu corpo e abrindo fendas sensíveis em minha pele, sempre me despedia dele, como se a história fosse morrer a qualquer instante, e eu junto com ela .

Nessa tarde, quando abri o envelope e percebi que dentro havia uma história de amor que se fazia presente em pura ausência, coloquei-me em busca das palavras e nesse exercício, refiz meu percurso angustiado, de alguém, que sempre caminhou com um certo torpor no coração- como se nem todo amor do mundo pudesse acalmar essa vertigem causada pela perda súbita, repentina e sucessiva, de quem mais amamos.

Porém, essa marca, longe de me lançar numa covardia diante do amor, me arremessou para terrenos onde se faz urgente desejar e saber- fazer com esse resto.

Depois do pianista, um homem magnífico, me apresentou Love Supreme de Coltrane e me fez sentir a experiência mais radical e profunda do amor, também como Letícia e Alberto:

‘’...me desmanchei em tua respiração, me misturei de tal forma com teu corpo, que já não sabia mais o que era o quê, quem era quem, de quem era o quê , numa simbiose que me deixou num desvario meio doido, sempre tonto de amor. Foi preciso palavras, olhares apaixonados , toques de reconhecimento deste amor tão lindo para que não me fragmentasse em uma miríade de pedaços. “

Com ele, fiz amor infinitas vezes, construi um lar, quebrei regras, suspirei e gemi- de dor e prazer, nele também depositei, atrapalhadamente, minha vida e meu vazio.

Mas naquela tarde, eu procurava uma casa nova para o meu desejo; e ele não estava comigo quando achei a correspondência antiga no fundo de um armário embutido. Petrificada e impotente, olhei para o céu na varanda de casa com medo de tocar uma história cheia de interrogações e de uma crueza inquietante e estranhamente familiar.

Tentei evitar e me tangenciar daquilo que atravessava a minha vida com uma violência apaixonada. Decidi então, dar vida nova para todas as palavras ditas e partilhadas por Alberto e Letícia.

No papel marcado pelo tempo, as palavras que não poderiam se perder no vazio da inconseqüência:

‘’ Por mais que tente pensar em um momento que seja só meu, inteiramente meu, é aí mesmo que te encontro em tua fulgurante beleza. Já não me compraz e nem me agrada ver-te assim a sofrer tanto por uma situação e me pergunto quanto mais vai durar esta impertinência em relação a teu próprio desejo. É uma questão ética que comporta nós dois, comporta este espaço que nos une, este momento que vivemos que, longe de estar acontecendo muito depressa, responde pelo encontro de nossas histórias, com tudo que procuramos e não soubemos encontrar, seja pela miopia que habita cada um de nós, seres humanos, seja por aquilo que evitamos procurar, morrendo de medo de que, de repente a vida dê certo. Me lembra a frase, dita por Freud quando quis se referir à felicidade humana : “Posso entender que os homens queiram se conhecer e serem felizes. O que jamais poderei compreender é por que eles precisam adoecer para poder tentar consegui-lo”.

Alberto conhecia bem o sabor entediado do amor resignado, Letícia também. E de fato, ambos concederam ao Outro uma potência que ele jamais terá, que é de atuar tiranicamente sobre nossa liberdade - e leia-se, nosso desejo - para desencumbirmo-nos da tarefa, por vezes tão árdua, de encarar que a ferida é nossa.

Continuo lendo a história de Alberto e Letícia, e olhando para o céu azul- marinho, escuto o violino de Sándor Végh e Bach invadindo a varanda. E, diante de Bach, escuto a fala de Alberto- ‘’inerte e paralisado numa petrificação da vida pela impossibilidade de escolha. ‘’

Nas letras quase apagadas, já não sabia mais onde começava e terminava Letícia e Alberto, e no sangrar daquelas palavras, também me coloquei nua diante do amor. Há mesmo, que se que ter ‘’coragem, para sustentar esta experiência que comemora a vida tão perto da morte e ultrapassar os momentos onde a impossibilidade mostra sua face mais cruel e tirânica, nos impondo um campo vazio no qual é-nos vetada a possibilidade de escolher, onde caímos total e irremediavelmente no campo do proibido, do negado, do impossibilitado.’’


Absorvi o mistério da narrativa. Bach tocou o coração da angústia e traduziu esse exílio metafísico eterno, essa fragmentação tão súbita, essa nostalgia de um absoluto que não vemos, mas nos vê...

Música do céu, música do amor.

2 comentários:

couto.zegeraldo disse...

que coisa mais linda! ficção, memória, ensaio, poesia: todas as fronteiras de gênero perdem sentido diante de um texto tão pleno.

gibiliga disse...

Puxa, demorei para me dar deleite de ler-te, e bem feito, caí nessa imensidão de reflexão de vivências. Decerto que sabes fazer alguém se sentir ouvido, mas com esse repertório de musicalidade, puxa vida, é quase... "outra história".
Tem épocas que parecem , as coisas dx outrx, longe de "tão somente" momentos com x outrx, como que misticamente sublimes (ou transcendentes - talvez seja palavra que melhor se aplique).
O que (des)acontece depois, talvez daquele risco de neutralidade e anulamento, é que é fogo (com fogo?), uma casa disputada, valiosa, de vontades, num espaço de relação que só faltaria implodir, em mundos e mudanças. Ah, desculpe, melhor eu não começar com isso, meter-me a falar de mudanças também. Mas que coisa essa de blogue, vou tomar mais cuidado (de ler, óbvio, e pensar nos "apegos", e "nas mudanças"...)..!