09/09/2010

Qualquer vida é um livro...


(foto tirada da janela de casa num dia qualquer...)

Um dia conheci um menino. Mudou de lugar no ônibus e fez uma viagem comigo.
Curta e intensa. Logo se apressou em sorrir para mim e nesse silêncio que não entendemos bem, perguntou se poderia falar comigo. Digo: " Então me conta" - é a minha senha para fazer alguém falar. E escuto...

Escuto porque gosto dos romances existenciais, escuto para não me esquecer do outro e para lembrar que só existe vida quando ela é contada e que, se há algum sentido na existência é na narrativa que ele acontece.

Escuto e a minha história se reescreve na sua fala amorosa sobre sua mãe que morreu jovem. Assustada e comovida, começo a me lembrar de um outro menino que me dizia: ''Bia,a existência é devir", e que foi embora cedo de mim, mas deixou cravada na minha alma essa coisa de reeditar insistentemente a minha história.

Eu sabia que a sua incrível genialidade lhe pesava muito e temia por sua vida, desde o início. Lembrava de Rimbaud, gênio da poesia que no século 19, com menos de 20 anos de idade, já tinha escrito seus melhores poemas e morreu jovem nessa coisa de não caber em si.

Tinha também Hemingway, seu escritor preferido, que viveu a vida intensamente, sorvendo tudo até a última gota.Escreveu coisas brilhantes, bebeu mais do que podia, também morreu jovem e fazia parte de uma espécie de homens malditos e iluminados- aqueles que jamais serão superados. Os originais, audaciosos, polêmicos, marginais, os que se renovam sempre, os que fizeram a gente rir e pensar. Os que são lendas ainda vivos. Os que são lendas vivas e continuam lendas depois de mortos.Aqueles que sabiam que a vida não é coisa lá que se retenha ou se compre.

Gente que nasce sabendo que esse intervalo entre o nascimento e a morte é mesmo absurdo e misterioso; e sabe secretamente que a gente só vive se contando, porque do contrário-sem nossos enredos inventados- não poderíamos encarar esse intervalo de crueza inquietante e angustiada.

Ele desceu daquele ônibus antes de mim, e eu segui com o coração em desatino, flutuando no oco das palavras e tateando o mistério de sua vida. Ele cuidou de enviar uma mensagem delicada pelo celular, alguma coisa tão especial que marcou meu corpo e que me disse que é a consciência do fim que nos leva a contar histórias.

Viajava para Descoberto e carregava um livro. Num gesto de desespero, buscando uma palavra que contornasse o momento, abri numa página qualquer onde André Comte- Sponville dizia de um alegre desespero : “” Trata- se de preferir a vida como ela é, com suas dificuldades, com seu quinhão de horrores às vezes, mas também com seus prazeres, suas alegrias, seus amores; aceitar e amar a vida como ela é mais do que esperar uma outra.”

Esse menino e tantas outras pessoas que cruzaram meu caminho com histórias também me fizeram. Hoje escrevo na tentativa de fazer o inescapavelmente efêmero, de algum modo, permanecer.

Em cada palavra que escrevo, há fragmentos dessas várias vidas que me atravessaram e construíram o enredo de minha vida e o meu discurso no mundo.

Nesse fim de tarde, vou costurando um vestido com retalhos dessas narrativas, onde me cubro para não desaparecer no abismo de mim.

Lembro com ternura do menino que ainda se interrogava sobre coisas tão essenciais e ternas, e quando perguntado pelo pai, respondeu, um dia, constrangido e emocionado:

''Meu pai chama- se Raimundo, mas não é rima e nem solução!''

A vida é mesmo coisa muito frágil e, talvez não tenha mesmo muito sentido....

Nessa narrativa onde ficção e realidade se tropeçam e se confundem, sigo escrevendo no céu do absurdo, o meu movimento em descompasso apaixonado.

2 comentários:

Flávio disse...

Como pensar a vida fora de um singular que insiste em se escrever? Inda não escrito chora pelass palavras que são sussurradas pela fenda discreta do desejo do outro: a ser escrito no corpo.

Manuela Becken disse...

Estou "curtindo" sua escrita cheia de encantos do acaso em si, de si, que deixa para nós!
« Então me conta» eu vou ficar escutando sua escrita!