( foto de Cartier- Bresson)Enquanto lia Os Pensamentos de Pascal, evitava me imantar nas cartas de Letícia. Qualquer leitura é perigosa quando estamos lançados no coração da angústia, da dilaceração, do desolamento.
Tomei a decisão de abrir o último envelope amarelado pelo tempo, quando Pascal buscou palavras tão precisas e cortantes para descrever nosso calabouço existencial- '' Somos um meio entre o nada e o tudo, estamos infinitamente afastados de compreender os extremos..."
Naquele momento, decidi ler aquilo que do outro, me atravessava em puro enigma:
'' Alberto, quando nos conhecemos, naquela noite de céu azul- marinho, o tempo se desdobrava intenso, quebrando as regras de marcação e se tornando mais parecido com o infinito. Eu tinha um lapso de memória , uma lembrança de algo que ainda não aconteceu. Quase uma saudade do futuro. Foi um encontro. Eu achava que era quase destino.
E se, você escreve que destino é a consequência de um ato, digo que tanto destino, quanto ato, podem designar viagens. O local de destino se descobre colocando em ato o desejo.
Se você escreve em outra carta, recuando de seu desejo e de sua responsabilidade com nosso encontro, dizendo que destino é uma entidade misteriosa que determina as vicissitudes da vida, digo que a verdade toda nos é vedada, mas só tocamos algo dela, quando colocamos em movimento esse silêncio que nos petrifica.
Tomo as rédeas da minha vida, mas não sem lembrar de você, principalmente nas horas de descanso, onde não consigo tirá-lo da cabeça. Acho que é porque não está na cabeça. Está em meu corpo, por meu sangue, abraçado com minha alma, debaixo de meu vestido.
Mas, o tempo é igualmente proporcional à vontade e interferência da gente. Quando esquecemos dele, as coisas se perdem esmaecidas e vacilantes dentro do coração da memória. Tenho me lembrado de você com uma distância maior do que antes. A forma leviana e um tanto covarde como conduziu aquilo que era tão puro e sincero, faz com que as coisas se evaporem cada dia mais. Mesmo assim, escrevo nossa história, um tanto angustiada, por perceber, que só para mim ela foi única e radical. Ainda assim, escrevo.
Mas, o tempo é igualmente proporcional à vontade e interferência da gente. Quando esquecemos dele, as coisas se perdem esmaecidas e vacilantes dentro do coração da memória. Tenho me lembrado de você com uma distância maior do que antes. A forma leviana e um tanto covarde como conduziu aquilo que era tão puro e sincero, faz com que as coisas se evaporem cada dia mais. Mesmo assim, escrevo nossa história, um tanto angustiada, por perceber, que só para mim ela foi única e radical. Ainda assim, escrevo.
Escrevo, porque quando encontrei você, o tempo se tornou troca. Um vai e vem intimista e minucioso de olhares certeiros, como na música do Adoniran Barbosa e Oswaldo Moles. Qualquer dúvida que eu carregasse ficou para trás , depois que eu senti seus olhos cheios de poesia e fúria adormecida.No avesso das coisas e explodido de exuberância, você foi meu par na contramão.
Andei silenciosa pelo mundo uma semana. Calada pela pureza do encontro. Sem tônica de expressão. Atônita. Entorpecida da maravilha do desconhecido que nunca tive antes vontade de descobrir. Descoberta, tentei passar despercebido pelo desejo mas não teve jeito. Tentei ser dura como rocha mas me deu defeito. Fiz o possível para parecer desleixo. Derrapei no rompante. Refiz os versos da canção que esperava ser composta. Expandi a melodia singular tirando-a num solfejo.
Agora, percebo quieta o som do desejo.
Agora, percebo quieta o som do desejo.
Desarmada e vulnerável, escrevo no vazio dos dias a surpresa de perceber que não era comigo, que não era para mim.
Sem reticências.
Letícia "

1 comentários:
Letícia sabe de umas boas, tocante, à altura de "música do céu", para não falar no convite de Pasqual, na composição textual. O olhar de leitura escorre, freiando, pela tela. Outros leitores, atônitos e mais elegantes, terão comentado com seu silêncio.
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