
Pai, hoje senti saudades e tentei me segurar naquele seu último pedido. Num solilóquio íntimo e incessante conversei com você e pedi ajuda, coisa que nunca fiz.
Tenho medo de deixar o samba morrer em mim. Canto desesperada para não deixar arrefecer essa chama de vida. Canto aquelas chuvas que esperávamos juntos na janela, a ventania nos meus cabelos, o farfalho das árvores, o estrídulo das aves.
Lembro daquelas manhãs, onde você me acordava violentamente e dizia:"" Bianca, você precisa viver o cravo bem temperado de Bach.". E eu levantava sonolenta e brava, mas logo penetrava seus movimentos intrigados com o que acontecia a cada compasso.
Bach permaneceu como um enigma indissolúvel- aquilo que mais tarde li em Paul Valéry- ''música que constrói um sentimento sem modelo, que encontra só na própria música sua expressão. ''
Nesses prelúdios e fugas, fui construindo minha vida afetiva. Fui cantando sambas, saudades, amores.
Hoje eu choro a piscina de plástico no quintal, o rio que cortava a fazenda, o ribeirão onde eu nadava escondida, a lagoa de patos que você desenhou para mim- poesia fluida que escoa da fonte.
Tento escrever aquelas flores do nosso jardim , a primeira bicicleta, o primeiro tombo.
Sinto o mesmo medo e demando a mesma garantia do outro: " Pai, você promete que eu não vou cair?" E você me empurrando para o mundo, responde sem dó: " Não prometo nada, menina. Só caindo e levantando. "
Apavorada, sem certezas, procuro ao redor de mim alguma coisa. Encontro em meus olhos úmidos, aquele último gesto seu- um piscar de olhos que só eu vi, marcando, num lampejo, uma cumplicidade delicada e intensa.
Num esforço de reconciliação e nesse emaranhado de contradições, ambivalência e dor, não recuo do meu desejo e não deixo o samba morrer- acolho seu pedido final.
Vivo...

5 comentários:
Bia, querida! Eu vou contar essas histórias... Vou! Beijos, Taisa.
Bia, querida! Eu vou contar essas histórias... Vou! Beijos, Taisa.
chorei emocionada. que bia tão linda, que pai bonito!
Quanta delicadeza Bia. Linda a sua escrita. Adorei estes dizeres para Bach: "música que constrói um sentimento sem modelo, que encontra só na própria música sua expressão". Beijos, Ana.
Coisa RICA!!!
"...aquele último gesto seu- um piscar de olhos que só eu vi, marcando, num lampejo, uma cumplicidade delicada e intensa". que lindo, que abençoada!! VC
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