02/10/2010

Carta ao pai


Pai, hoje senti saudades e tentei me segurar naquele seu último pedido. Num solilóquio íntimo e incessante conversei com você e pedi ajuda, coisa que nunca fiz.

Tenho medo de deixar o samba morrer em mim. Canto desesperada para não deixar arrefecer essa chama de vida. Canto aquelas chuvas que esperávamos juntos na janela, a ventania nos meus cabelos, o farfalho das árvores, o estrídulo das aves.

Lembro daquelas manhãs, onde você me acordava violentamente e dizia:"" Bianca, você precisa viver o cravo bem temperado de Bach.". E eu levantava sonolenta e brava, mas logo penetrava seus movimentos intrigados com o que acontecia a cada compasso.

Bach permaneceu como um enigma indissolúvel- aquilo que mais tarde li em Paul Valéry- ''música que constrói um sentimento sem modelo, que encontra só na própria música sua expressão. ''
Nesses prelúdios e fugas, fui construindo minha vida afetiva. Fui cantando sambas, saudades, amores.

Hoje eu choro a piscina de plástico no quintal, o rio que cortava a fazenda, o ribeirão onde eu nadava escondida, a lagoa de patos que você desenhou para mim- poesia fluida que escoa da fonte.
Tento escrever aquelas flores do nosso jardim , a primeira bicicleta, o primeiro tombo.
Sinto o mesmo medo e demando a mesma garantia do outro: " Pai, você promete que eu não vou cair?" E você me empurrando para o mundo, responde sem dó: " Não prometo nada, menina. Só caindo e levantando. "

Apavorada, sem certezas, procuro ao redor de mim alguma coisa. Encontro em meus olhos úmidos, aquele último gesto seu- um piscar de olhos que só eu vi, marcando, num lampejo, uma cumplicidade delicada e intensa.

Num esforço de reconciliação e nesse emaranhado de contradições, ambivalência e dor, não recuo do meu desejo e não deixo o samba morrer- acolho seu pedido final.
Vivo...



5 comentários:

Taisa disse...

Bia, querida! Eu vou contar essas histórias... Vou! Beijos, Taisa.

Anônimo disse...

Bia, querida! Eu vou contar essas histórias... Vou! Beijos, Taisa.

Anônimo disse...

chorei emocionada. que bia tão linda, que pai bonito!

Ana Carolina Nunes disse...

Quanta delicadeza Bia. Linda a sua escrita. Adorei estes dizeres para Bach: "música que constrói um sentimento sem modelo, que encontra só na própria música sua expressão". Beijos, Ana.

Vera Regina disse...

Coisa RICA!!!
"...aquele último gesto seu- um piscar de olhos que só eu vi, marcando, num lampejo, uma cumplicidade delicada e intensa". que lindo, que abençoada!! VC