26/01/2011

Amor sertanejo


Tanto quanto uma sessão de análise,aquelas viagens de ônibus permitiam entrever as possibilidades e os limites daquilo que a palavra não era capaz de dizer. Mais ainda,arremessavam-me diante de meu próprio discurso sem me permitir neutralidade: ainda que em um aparente monólogo,quando entrava no ônibus,estava dividida entre aquele que fala e aquele que escuta-eu e meu duplo.

Encarar quase cinco horas de viagem, sabendo encontrar logo adiante, a figura de meu analista,sempre foi um desafio que me retirou, durante todos esses anos,da imersão na solidez de um cotidiano, muitas vezes,vivido no automatismo. Suportar ir e vir sem nenhuma garantia era aprender a tolerar a desordem íntima e a desagregação, silenciadas por essa inércia cotidiana.

Em minhas últimas viagens, segui acompanhada por um outro olhar que se presentificava silencioso e doce. Alguma coisa bonita, quase espiritual em sua ex/istência. Era a delicadeza que abarcava o sem limites e sem contornos.

Com aquela ''presença- ausência'', os desdobramentos da linguagem faziam revelar a pulsão e com ela, um real impossível de representar, que dissolvia toda a noção consciente de tempo e espaço.

Aquela companhia crescia vertiginosamente e fazia de minhas viagens um exercício de descontinuidade, marcando a impossibilidade da linguagem em dizer tudo.

Para ele resolvi escrever. Para um rosto sem nome, para um nome sem rosto, para aquele que, quando escrevia, percebia que não havia imagem ou representação simbólica capazes de revelar e nem de esconder tudo.

Então escrevo, deixo voar a palavra silenciada e algo se denuncia-uma realidade me invade e se configura, sem que eu possa extrair um sentido. Não,não encontro em parte alguma, mas sei que é algo que está aí, se interpondo no curso da vida e marcando seu bordeamento- alguma coisa entre o desmedido e a aridez do desencontro, como naquela história de amor sertanejo que escutei numa dessas viagens-letra por letra, escancarando aquilo que está além de mim.

Um amor rabiscado em linhas tortas também, um amor ficcional como a vida. Amor de um sertanejo, que é antes de tudo um forte. Sentimento que fez um homem viajar em ônibus e caminhões e pedir em casamento um moça que ele só conhecia por fragmentos. Cartas trocadas e juras baseadas em citações do cântico dos cânticos, que eu achei surpreendentemente bonitas, exóticas, líricas e cheias de erotismo.Alguma coisa que não cabe na palavra, mas eu relembro aqui:

"Sebastião me contou de Maria-quase uma criatura mítica. Relatou seu épico encontro e suas aventuras, como se fosse um Borges com seu Manual de zoologia fantástica. Contei para ele da esfinge, do centauro, do dragão e ele disse feliz que enfrentaria todos os monstros do mundo para viver o amor com Maria. Juro que escondi meus olhos emocionados atrás dos óculos escuros.

Sorridente, ele me perguntou se esse Borges e esse tal de Kafka são nordestinos. Contei então de Odradek de Kafka-ser extraordinariamente móvel, que não se deixa aprisionar e de domicílio incerto. Sebastião deu aquele mesmo riso de folhas secas de Odradek e falou: " é um nordestino da porra, vai me desculpar."

Tive vontade de arrancar o vestido do corpo e dar para ele vestir Maria. Nua, totalmente comovida, peguei a manta que eu carregava e dei para ele des-cobrir a mulher amada no próximo encontro. Tirei da bolsa o João Cabral que carregava e disse: esse é para você- um nordestino poeta que vai do sertão para o mundo. Ele aceitou emocionado e eu tirei os óculos e chorei um mar inteiro para não deixar esse afeto secar."


Era tudo verdade e nesse dia o vento balançou o meu vestido e eu senti no corpo os ritornelos, ritmos e tempos diferentes do feminino. Escolhi encarar o desconhecido e fazer um reparo, uma costura- a tessitura fina do mistério que passou a ter um único nome- um nome onde cabiam todas as minhas fábulas e dissonâncias de amor.

Era quase nada aquilo que tínhamos, mas Manoel de Barros com sua simplicidade imensa e quase euclidiana, sabe bem que se o nada desaparecer a poesia acaba. Lembra?!

"Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades..."

0 comentários: