
Daquele amor não guardei uma palavra sequer, uma carta, um pedaço do laço de fita que embrulhava a flor, uma lágrima colhida de véspera, uma foto secreta.
Nada...
Mas , dentro de mim, as palavras latejavam querendo sair. Algumas vezes, saltavam de meus olhos em forma de mar num choro salgado e cheio de saudade. Noutras vezes, elas dançavam diante de minha boca e retornavam assustadas para dentro do meu peito.Em alguns dias, quase me sufocavam sem destino adequado e escapavam, selvagens, para dentro de minhas vísceras. Quando isso acontecia, eu avistava um drapejar branco serpenteando abismos e desenhando precipícios e lembrava de minha mãe dizendo:
- “ Filha, um dia você vai entender que na palavra não cabe a coisa.”
Eu insistente: “ Cabe nuvem na letra, mãe! A gente amassa a nuvem, coloca na mão e joga dentro da palavra.”
Ela rindo nervosa: “ Há coisas muito grandes que a gente não consegue amassar e jogar dentro da palavra, Bianca.”
Cresci tentando amassar o mundo e tentando fazer caber na palavra a grandeza das coisas. Hoje, assombrada, balbucio as primeiras palavras da minha terceira margem do rio e escrevo em qualquer papel:
-“Diz, diz meu coração o nome do amor. E eu soletro aturdida o nome dele, como quem vê um fantasma de si. “
-“ Diz para ele que o único lugar que me comporta é esse. Você aí- diga já.”
Digo e renasço fora do pastiche de mim. Escrevo cartas e guardo na gaveta da eternidade, rabiscos versos camaleônicos em guardanapos no bar.
Há um nome...
Acordo com ele e desenho um mar de azul decidido para depois esfregar com mata-borrão, até virar um azul esmaecido da cor da delicadeza do meu amor- que espera, espera, espera.
E eu sonho esses desejos insolentes que ousam sair rastejando e crescendo dentro de meu coração-ilha deserta do escuro da estrada, água decantada nos olhos assustados de ver, sentimento terrível de desolamento- não sou mais sem ele.
Há um nome pintado em degradé no litoral de mim.

4 comentários:
Muito bonito Bia. Gostei demais!
Bia, vc soube como ninguém amassar um horizonte de sentidos e colocar nessas palavras. Foi um encantado quando desdobrava cada uma e descobria um jeito bonito em cada uma das dobras. [Cada dobra guardava um rio que ficou margeando em meus olhos enquanto lia]. Há rio que levam ao mar esse me levou ao litoral de uma Bela Alma. :)
Lindo texto. Dizem que entre as coisas perdidas estão os grandes achados. Não digo que esse espaço estava perdido para mim, mas como estou um tempo sem seguir os blog, ele foi um grande achado. :)
Beijos
G
uau!! que lindeza!!!
"Cresci tentando amassar o mundo e tentando fazer caber na palavra a grandeza das coisas."
é de aturdir!!!
parabéns, mocinha! ;)
beijo
Delicado. Não vivo mais sem suas palavras, Flor.
Beijos...
Taisa.
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