13/01/2011

Naqueles dias



Eram dias de tatear no escuro qualquer sentido, dias de pedir socorro para Clarice, noites de decupar uma vida inteira, madrugadas de esboços de poesia, de olhar as estrelas no céu e tentar respirar um ar rarefeito e sofrido.
Ele chegou para Beatriz numa dessas madrugadas. Três da madrugada, feito música que embala sonhos antigos. Beatriz, que não desenhava já havia muitas noites, escreveu nas ranhuras de um papel a palavra - Descoberto. Assustada, prestou atenção naquele moço que fez com que ela se sentisse descoberta em sua intimidade.

E, como num passe de mágica, uma cortina se abriu para um mundo de riachos, cometas, verdes, lagoas e mares. As palavras silenciadas insistiram em escrever um texto líquido. E depois, era tanto silêncio por escrever, que as palavras escreveram um texto seco, áspero, inóspito. E seguiram, depois daquela música, a escrever e desenhar infinitos imagéticos.
No tempo em que o amor era uma dádiva e que o assombro de toda madrugada era partilhado em sintonia fina e delicada, Beatriz cuidou do jardim, escreveu de Maria Martins, assistiu O espelho de Tarkovsky pela terceira vez e chorou com suas imagens belíssimas e contundentes, querendo ver todos os filmes do mundo com aquele homem que descortinou as imagens de sua infância.
Num quarto escuro de hotel, numa noite qualquer, ela- entre vestígios vestíveis de estrelas e diante de um céu vertiginoso -suspirou e escreveu roteiros imaginários em sépia.
Nesse tempo, viu seu corpo se tornar estranho e se tornou uma estranha daquilo que sempre tinha habitado. Era a força abrupta da paixão insistindo em tomar conta de seus dias.
Enfim, o moço de coração machucado alcançou a bailarina do desejo desesperado- aquela do livro de João Gilberto Noll, que ficava na cabeçeira de sua cama, esperando para ser morada de Beatriz ,também bailarina tocada pela ferida aberta no coração da linguagem.
Com a violência que há nas coisas mais sublimes, o “ cego e a dançarina” se encontraram e sentiram a beleza convulsiva e barroca da vida e a fúria do corpo, que se faz vivo somente enquanto pode ser dito.
Falaram das coisas mínimas e absurdas, disfarçaram amor de tão imenso que era, tiveram medo do vazio que se instalaria nos dias seguintes, evitaram despedidas dramáticas- ele como um operário e ela como bailarina.
Foi bonito por um segundo de eternidade- ela disse feliz ao acordar e ver a paisagem viva do seu lado. Há coisa mais doida e doída que a vida, moço?
Ele balançou a cabeça e antes de partir, perguntou chorando: Bianca é o seu nome?
Ela, sabendo que a verdade é seu dom de iludir, respondeu com um silêncio engasgado: - Meu nome é Beatriz e é impossível a gente ser feliz.
Assim, seguiram impactados e aturdidos pelo amor e pela falta, sabendo que beleza da verdade é errática e que sempre existiria um sopro no coração de cada um, como um bailado suave de eros e tânatos, como doença que não se cura toda, como um amor louco que se vive pela metade.
Assim., tropeçando em reticências...

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