10/02/2011

Como seria a Camille Claudel de hoje?


Rodin,
Não estou disposta a revelar detalhes e nem esmiuçar dores antigas. Já boicotei muita coisa nessa vida para continuar me arrastando assim. Vou me entregar em elipse: ‘’que você tenha um bom descanso, que você possa construir um sepulcro volátil, que saiba se dissolver com os pequenos sopros de alegria da vida.”
Já tive ímpetos de me mortificar com você, mas não mais. Olhei assustada para você oferecendo seu fracasso . Um kamikaze emocional de altos e baixos, que muitas vezes, agonizava diante de mim.
E eu como na série trágica de Flávio de Carvalho, vendo sua mãe morrendo, tentava estender as fronteiras da linguagem me ligando em sua dor moribunda, numa ânsia de estabelecer contato com sua aflição.
Não, não quero esse reino do vazio e da arrogância. Minha linguagem já é atrevida e penetra labirintos sombrios por si só. Encaro seus gestos drásticos como a única tentativa de comunicação, que aprendeu com um mãe castradora e sem afetividade.
Acolho seu cansaço e seu desatino e num ritual amoroso e generoso, faço uma mortalha de palavras. Assim, simbolicamente, vivemos um luto .
Não serei arbitrária, mas aquilo que eu tenho para dar não é tudo. Preservarei minha integridade.
Você nunca mais roubará nada de mim e nem construirá castelos de areia em meus terrenos emocionais.
Só assim podemos seguir, Rodin.
Terá de esculpir seus sonhos em pedra.
Beijos:
Camille

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