05/04/2011

Sobre futebol

                                         (foto Farkas- estádio do Pacaembu)

Nunca entendi o futebol, mas como as coisas mais bonitas de minha vida, ele foi atravessando minha existência, ora silenciosamente, ora aos ruídos de um radinho de pilha antigo de meu avô. Tenho lembranças dos domingos na rua " quase-vila" e o dos gritos do vizinho enfurecido com o juiz, de todas as copas do mundo e da minha mãe cortando bandeirinhas de papel para pendurarmos na rua em mutirão. Lembro de coisas poéticas que pareciam saídas de um filme iraniano: os meninos jogando num chão de terra batida com os pés descalços e alaranjados até a alma , o meu pai de camiseta vermelha nas fotos do time de Descoberto num campo inóspito no meio da mata.

Em muitos momentos de minha infância, deitada no passeio quente de casa com meu pai, senti uma espécie de paz, ouvindo as narrações totalmente incompreensíveis para qualquer menina da minha idade e sentindo a calma apaixonada de meu pai- que só acontecia nessas ocasiões. Ele, que nunca prestava atenção em uma coisa só, desviava de vez em quando a atenção para me dizer alguma coisa do tipo: " Presta atenção, menina. Deixe de ser petulante." Nunca aprendi e ele continuava na sua insistência constrangedora de dizer que eu gostava de futebol. E eu dizia: " Pai, você me faz pagar mico." Aquilo era uma espécie de detonador de bombas. Funcionava ás avessas e no dia seguinte ele chegava com um short de futebol e uma camisa de time. Foi assim a vida toda- fato comprovado pelas inúmeras fotos com camisa de futebol: Vasco, cruzeiro, Botafogo, Seleção Brasileira. As crianças todas fofas, de vestidinho e eu lá com aquelas roupas.  Hoje, quando vejo essas fotos, fico comovida e penso que alguma coisa ele tentava transmitir através do futebol. Minha mãe, com sua ironia peculiar, solta, de vez em quando:  " Deve ser por isso que você ficou tão feminina, fã de vestidos e bem cheia de frescuras." - e sentimos falta das loucuras do meu pai nas entrelinhas partilhadas.

Hoje eu entendi o futebol, essa mistura estranha de espontaneidade e elaboração, de criatividade e disciplina, de acasos e estratégias. Meu pai me dizia que se eu amasse o futebol, entenderia que todas as regras da vida cabiam ali. E num desconcerto enorme, comovida diante do enigma da falta de respostas, olhei para as quatro linhas do campo, onde comparecem misteriosamente elementos da  da ética e da estética e concordei.  A bola, quase aquela de Dylan Thomas, ainda não tocou o chão. E revisitando minhas fotos, eu começo a lembrar que a bola é mesmo esse objeto  imponderável, ao mesmo tempo controlável e incontrolável, completo como nenhum outro.

Paro de filosofar e sinto no corpo um amor transbordante pelo jogo. Lembro de momentos com primos, da educação física na escola e assustada, constato que sempre gostei de futebol, como aquelas coisas ao longo do caminho que não sabemos controlar e tentamos expurgar;  o futebol, essa espécie de celebração estética do corpo e difícil de apreender em conceitos, me deixava assustada. Gostar de futebol era aceitar perder o controle e ir, coisa que nunca me permiti. Sempre fui de planos de voô, mesmo nos meus descontroles e improvisos.

Certa vez, apaixonada por um rapaz, aceitei ir ao estádio de futebol  e sem entender absolutamente nada e irritada, eu disse: " Ei, me ensina alguma coisa."E ele nervoso: " Bianca, é só olhar e querer desvendar. Você precisa filosofar menos."

 Quando o jogo terminou, lembro dele me contando a famosa cena do jogo entre filósofos gregos e alemães, encenada pelo Monty Python- ao vivo no Hollywood Bowl (1982.)  Ele amava me contar aquilo: De um lado do campo entram Heráclito, Sócrates, Platão, Aristóteles, etc..todos vestidos com aquelas túnicas brancas e sandálias típicas. Do outro lado vem Kant, Hegel, Nietzsche, Marx e a patota, trajados com casacos e chapéus pretos, conforme os costumes europeus dos séculos 18 e 19. Os árbitros são Confúncio, Agostinho e Tomás de Aquino, escolhidos provavelemente pela reputação de serem santos.Os dois times estão animadíssimos, mas quando Confúcio apita o início da partida, o que acontece? Isso mesmo, nada acontece, ou melhor, os filósofos começam a fazer o que sabem melhor, isto é, pensar. Ficam meditando de um lado para o outro, alguns coçando a cabeça, outros o queixo.  Marx e Hegel iniciam uma longa discussão, o mesmo acontece entre Sócrates e Platão, mas chutar a bola que é bom, ninguém faz. Depois de alguns minutos o locutor desiste de narrar o jogo e vai embora.

Achava óbvio que fosse assim, mas hoje entendi  que para penetrar o mundo do futebol é preciso deslizar entre a violência e a graça dos movimentos sutis e delicados dos corpos correndo atrás da bola- essa coisa platônica e fractal que sempre me intrigou.

 Hoje, com uma palavra,  através de um significante profundo e preciso, eu assumi meu amor pelo futebol- esse que sempre esteve ali na lateral dos meus sonhos e das minhas lembranças mais legítimas.

Lateral- o real lacaniano, o tempo da intermitência da linguagem, o momento da bola na mão, a falta de senso da vida.

E tudo que eu sempre fui, estava encarnado ali. Todos os meus esquemas defensivos de uma vida inteira, a minha relação com o feminino, o corte e costura de regras profundas, que aprendi correndo atrás do olhar do meu pai,  sempre pousado nas margens mais enigmáticas da vida- essas que o futebol encerra num espetáculo simultaneamente épico, trágico e cômico.

Minha existência toda passava por essa transmissão insistente- minha forma de calcular o gesto, o descontrole, e essa pergunta  sempre ao lado, como a bola na mão numa lateral; esse enigma que corre o tempo nessa margem incalculável e irredutível e que gera movimentos imprevisíveis, fazendo com que meus olhos úmidos se recordem, aflitos e felizes, do meu pai chutando a bola e dizendo: " Chuta a bola e deixa ela ir embora, mas aprende a chutar de verdade e sem medo."

Sigo aprendendo....



(foto pai em descoberto)

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